BUNHEIRO EVOCOU A MEMÓRIA DE JOÃO GARCIA
A inauguração do novo “nicho das alminhas” de João Garcia, na travessa homónima, situada do lugar do Agro, na Freguesia do Bunheiro, marcou o início das comemorações do bicentenário das Invasões Francesas, promovidas pela Junta de Freguesia do Bunheiro, com o apoio da Câmara Municipal da Murtosa.
O nicho evoca a memória de João Garcia, natural da Galiza, que, tomado por espião dos Franceses, foi morto pelo povo do lugar do Agro, em 16 de Abril de 1809. Este acontecimento passou a marcar, de forma indelével, o imaginário do lugar.
O novo nicho das alminhas de João Garcia foi descerrado pelo Presidente da Junta de Freguesia do Bunheiro, Eng. Daniel Bastos, e pelo Presidente da Câmara Municipal da Murtosa, Dr. Santos Sousa, tendo sido benzido pelo Padre Filipe Coelho, Pároco do Bunheiro.
A alocução do Presidente da Junta de Freguesia, que de seguida se transcreve, dá conta dos detalhes associados ao acontecimento que marcou a chegada das tropas Francesas às terras da Beira-Ria.
EVOCAÇÃO DO BICENTENÁRIO DAS INVASÕES FRANCESAS
16 de Abril de 2009
No decurso da 2ª Invasão Francesa a Portugal, expedição comandada por Soult, depois de se terem apoderado da cidade do Porto, com o objectivo de atingirem Lisboa, enviaram contingentes de tropa a várias localidades situadas a sul, com o objectivo de ganharem posição e verem assim facilitada a sua progressão rumo à capital.Com algumas escaramuças pelo caminho, as tropas francesas chegaram ao lugar de Soutelo da freguesia da Branca, do concelho de Albergaria-a-Velha, onde montaram acampamento e daí fizeram incursões a vilas e aldeias da vizinhança.
No dia 16 de Abril de 1809, invadiram Salreu e Estarreja e, no dia 21, o Bunheiro.
O saudoso Dr. José Tavares Afonso e Cunha, nosso conterrâneo, no I e III Volume de “Notas Marinhoas” relata-nos de forma exaustiva estes acontecimentos, socorrendo-se de uns registos de um sacerdote da freguesia, o Padre Manuel José Pereira Ruela e dos assentos de óbito do registo paroquial lavrados pelo Cura da época o Padre António Rodrigues Pinto. Destes assentos e destes depoimentos, autênticas pérolas da nossa história local, com grande ênfase da história desta nossa freguesia, me irei socorrer durante esta intervenção.
Diz o Dr. José Tavares:
“Deste último destacamento de Soutelo entraram hostilmente em Estarreja em domingo, dia 16 de Abril do dito ano de 1809, matando algumas doze ou mais pessoas e, em Salreu, cinquenta e tantas, enfurecendo-se com os sinais de rebate e resistência que estes povos vizinhos imprudentemente lhes queriam fazer.”
E noutro ponto diz:
“Foi de terror e sangue para Estarreja e Salreu esse domingo maldito de dezasseis de Abril; os mortos contaram-se por dezenas, sepultados depois, uns, em sagrado, outros, por hortas, campos e pinhais. Alguns incautos passantes pagaram com a vida o acaso de lá se encontrarem.”
Terá sido neste clima de terror e medo, pelo que se estava a passar em Estarreja nesse dia que, João Garcia, natural da Galiza, ao que se julga funcionário do Tribunal, procurando abrigo em sítio recatado, chegou ao Bunheiro, mais propriamente ao lugar do Agro.
O que se passou de seguida, conta-nos o Dr. José Tavares:
“A 16 de Abril de 1809, no Agro, quando fugia aos franceses da segunda invasão, foi assassinado e, no mesmo lugar enterrado João Garcia.”
E noutro local refere:
“ … um desventurado, ao que parece funcionário do tribunal, em fuga espavorida pelo Bunheiro, foi tomado como espião, linchado e logo enterrado no próprio lugar da morte.”
Os escritos, não o referem textualmente, todavia, inferem que João Garcia terá sido morto pela população do lugar pois, sendo estranho e falando língua estrangeira, o terá tomado por espião dos franceses tendo decidido fazer “justiça” pelas suas próprias mãos.
Também por descrições feitas mais adiante, se conclui que João Garcia não terá tido morte imediata, já que houve ainda lugar a algumas elucidações e declarações pessoais.
Para isso aponta o trecho seguinte:
“A morte violenta e a recusa de chão sagrado ao cadáver impressionaram vivamente a imaginação do povo: pelas noites de inverno, em anos sucessivos, eram muitas as pessoas que criam ver, sob a forma duma luzinha projectada no vulto negro dos pinheiros do Mancão, a alma de João Garcia a implorar a esmola de terra cristã para o desventurado corpo que lhe fora invólucro.”
Também este trecho indicia o mesmo:
“A morte do Garcia, de precipitada e injusta, trouxe muito vivamente impressionada a imaginação do povo, a ponto de ver ou acreditar no aparecimento de luzes sobre a sepultura, e chegou a dar remoque para cantigas de romaria:
O canto do Agro é lindo, mas tem com ele grande erro,
Assustado dos franceses, derramou sangue galego.”
Não há a certeza absoluta relativamente ao local da morte e do enterramento do João Garcia. A hipótese mais viável, a que nos chegou através de testemunhos de antepassados, é que a morte tenha aqui ocorrido (no local das alminhas), tendo o corpo sido enterrado um pouco mais a norte, à margem do caminho, fora das habitações. Há relatos de terem existido, durante muitos anos, umas “alminhas” de madeira fixas a um langumeiro nesse tal local (mais a norte) e diz-se que, depois do derrube dessa árvore, o então dono desta propriedade, José Joaquim Lopes dos Santos (avô de Alfredo Tavares Lopes dos Santos e de António Joaquim Tavares da Silva “Garete” - actual proprietário), mandara construir umas novas alminhas na parede (ou muro) aqui existente, mantendo viva a “devoção”.
O António “Garete” tem sido um acérrimo defensor da continuidade das alminhas do Garcia, sendo da sua lavra as anteriores (que agora foram retiradas para dar lugar a estas).
Mas, os restos mortais do João Garcia não permaneceram aqui por muito tempo. Passados cinco anos e cinco meses da morte e enterramento, por vontade expressa do povo do lugar, foi efectuada a sua trasladação para a Igreja do Bunheiro, conforme consta do assento paroquial que seguidamente se apresenta:
À margem:
"João Garcia. Morto a 16 de Abril de 1809".
No texto:
"Aos dezoito dias do mês de Setembro de mil oitocentos e catorze, nesta freguesia de São Mateus do Bunheiro, por ordem expressa do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor deste Bispado do Porto, se fez a trasladação dos ossos de João Garcia, que constava ser do reino de Galiza e assistia neste de Portugal, no concelho de Estarreja, o qual tinha sido assassinado nesta freguesia, no lugar do Agro, na ocasião da entrada dos franceses neste concelho, e foram trasladados do dito lugar aonde tinha sido sepultado pelos mesmos assassinos em um caminho junto ao mesmo lugar, que é servidão para as terras lavradias para a parte do norte do sobredito lugar, e foram os ditos ossos conduzidos, em caixão forrado, com toda a decência, processionalmente, acompanhados de todos os padres desta freguesia e vizinhas, para esta igreja aonde, pelos mesmos padres, se lhe fez um ofício solene e estão os ditos ossos sepultados nesta igreja, cuja diligência religiosa se lhe fez por constar ser o dito João Garcia católico e que pedira com instância confissão na ocasião da sua morte. E para a todo o tempo constar fiz este assento, que assino. Era ut supra. O cura, António Rodrigues Pinto".
Ainda o Dr. José Tavares, no Volume I de “Notas Marinhoas”, publicado em 1965 (há portanto 54 anos), diz:
“As Almas do Garcia, à entrada da congosta, em retábulo apagado, mudas para o descanso de toda a gente, ainda hoje recordam o crime, bem perto do local onde foi cometido.”
Hoje, em 2009, a 16 de Abril, precisamente no dia em que perfaz os 200 anos deste insólito e lamentável acontecimento, aqui estamos para o lembrar.
Foi este o primeiro dos acontecimentos, que o executivo da Junta de Freguesia elegeu para evocar o Bicentenário das Invasões Francesas.
Nessa perspectiva, decidiu o mesmo executivo substituir as alminhas existentes por umas novas, tal como já se fez no passado, mais adequadas, que oferecessem uma maior dignidade ao local, tendo para tal solicitado autorização aos proprietários, a quem agradece a permissão concedida.
Mais decidiu colocar nas mesmas alminhas uma placa que fique a assinalar esta evocação e esta iniciativa da Junta de Freguesia.
Daniel Bastos
(Presidente da Junta de Freguesia do Bunheiro)