TORREIRA VAI ASSISTIR AO 'BOTA-ABAIXO' DE UM NOVO BARCO MOLICEIRO
No próximo sábado, dia 20, por volta das 9.30h da manhã, a marina da Torreira, no Município da Murtosa, vai ser o palco de um acontecimento raro nos tempos atuais, e, como tal, digno de especial registo e regozijo: Marco Silva, um jovem arrais da Torreira, de 39 anos, vai fazer o “bota-abaixo” de um barco moliceiro completamente novo, construído por si.
O moliceiro, que será batizado com o nome do seu proprietário e construtor, “Marco Silva”, possui um comprimento de 15,95m e uma “boca” de 2,78m e foi construído em madeira de pinho, com recurso a técnicas tradicionais, ao longo de cerca de um mês e meio, pelas mãos hábeis de Marco Silva, ajudado pelo Mestre Firmino Tavares, filho do famoso mestre construtor de barcos moliceiros de Pardilhó, Agostinho Tavares, já desaparecido.
As pinturas do barco e dos respectivos painéis, actualmente em fase final de execução, estão a cargo do Mestre José Oliveira, conceituado artista plástico Murtoseiro, autor da quase totalidade dos painéis dos moliceiros existentes na Ria de Aveiro.
O “bota-abaixo” deste novo barco moliceiro possui um enorme simbolismo, pois representa um novo alento e esperança na preservação daquele que é o verdadeiro ex-libris da Ria de Aveiro e, provavelmente, a mais bela embarcação do mundo, que tem na Murtosa a sua pátria.
O desaparecimento da actividade para a qual foram concebidos – a apanha do moliço – ditou a quase extinção dos barcos moliceiros. Hoje, uma grande parte dos moliceiros ainda existentes, estão consignados à actividade turística nos canais da cidade de Aveiro, já sem algumas das suas características originais.
Na Murtosa, resistem, teimosamente, um conjunto de homens que mantêm as suas embarcações sem mácula, seja para actividade marítimo-turística, ou, apenas, pela satisfação de as possuírem.
Marco Silva ousou construir um barco moliceiro novo, que será o primeiro, em seis anos, a ter um “bota-abaixo” na Murtosa, em pleno coração, geográfico e afectivo, da grande laguna.
Com Marco Silva, pela sua juventude, está também garantida a continuidade dos saberes ancestrais da construção de embarcações tradicionais, pois com as suas mãos, para além desta novíssima embarcação, já tinha construído anteriormente cinco bateiras. Depois do moliceiro, o próximo desafio do jovem arrais e construtor de embarcações é materializar um novo barco xávega, de pesca de mar.
Fotografia do novo barco moliceiro, em fase de pintura: Da esquerda para a direita: Marco Silva, proprietário e construtor, José Oliveira, autor das pinturas, e Firmino Tavares, que ajudou na construção da embarcação